Projeto Fênix Basquetebol: de sete meninas na quadra ao topo do basquete escolar brasileiro
- 2 de mar.
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Fundado em 2017 em Goianinha/RN, o projeto social transformou dificuldades em conquistas e hoje revela talentos para o cenário nacional
Em 2017, um grupo pequeno de jovens e um professor determinado deram início a um sonho em Goianinha, no Rio Grande do Norte. Sem investimento, sem estrutura adequada e com poucas perspectivas de competição, nascia o Projeto Fênix Basquetebol, idealizado por Allison Henrique da Silva.
O nome não poderia ser mais simbólico. Assim como a ave mitológica que renasce das próprias cinzas, o projeto cresceu superando obstáculos e transformando dificuldades em combustível para seguir adiante.
O início: persistência em meio às limitações
No começo, eram apenas sete a oito meninas, entre 13 e 25 anos, e cerca de dez a doze meninos entre 11 e 15 anos. Havia ainda uma equipe adulta masculina com aproximadamente dez atletas. A estrutura era mínima. Muitas vezes, para garantir a participação em competições pelo interior, o próprio professor Allison custeava despesas do próprio bolso.
A falta de investimento dificultava a participação em torneios maiores e, por vezes, desmotivava atletas. Mesmo assim, o trabalho seguiu.
Primeiros resultados e reconhecimento

Em 2018, mesmo ainda enfrentando limitações estruturais e financeiras, o Projeto Fênix começou a colher os primeiros sinais concretos de que o trabalho desenvolvido estava no caminho certo. A participação em peneiras, amistosos e competições amadoras passou a expor os atletas a um nível maior de exigência técnica, elevando o padrão dos treinamentos e fortalecendo a confiança do grupo.
Foi nesse contexto que vieram as primeiras convocações para as seleções de base do Rio Grande do Norte: três meninos e uma menina foram chamados para representar o estado. Além do reconhecimento esportivo, os atletas receberam ofertas de bolsas de estudo — um marco significativo para um projeto que havia começado sem investimento e com recursos limitados.
Essas conquistas não representaram apenas medalhas ou certificados, mas a validação pública de que o Projeto Fênix tinha capacidade de formar talentos competitivos. Para a comissão técnica e para os jovens atletas, aquele momento simbolizou a prova de que o esforço coletivo estava dando resultado e que o sonho iniciado em 2017 começava a ganhar dimensão estadual.
Crescimento e desafios estruturais

O ano de 2019 marcou um avanço importante para o Projeto Fênix, mas também evidenciou os obstáculos que ainda precisavam ser superados. Com muito esforço na busca por patrocinadores e apoiadores, a equipe conseguiu participar de uma etapa classificatória do Campeonato Estadual Adulto, alcançando um expressivo terceiro lugar.
O resultado reforçou a evolução técnica do grupo e mostrou que, mesmo com limitações, o projeto era competitivo.
No entanto, o crescimento esbarrava em dificuldades estruturais significativas. A falta de um espaço fixo e adequado para treinos impactava diretamente o desenvolvimento dos atletas. Os horários eram reduzidos e, ao longo do ano, muitas vezes diminuídos pela própria secretaria, o que comprometia a regularidade dos treinamentos. Era comum que categorias diferentes e até mesmo equipes masculinas e femininas dividissem o mesmo horário de quadra, exigindo adaptações constantes da comissão técnica.
Resistência durante a pandemia

Em 2020, com a pandemia, as atividades precisaram ser suspensas. A comissão técnica se reuniu para buscar alternativas seguras de retomada. Foram estimulados treinos em casa, desafios online e interação pelas redes sociais.
Em agosto, com protocolos adequados, o projeto retornou gradativamente às quadras. Sob liderança do professor Gilberto Jr., o trabalho foi reorganizado e encerrado em dezembro com um evento interno que simbolizou a resistência e a retomada.
Parceria que mudou o rumo do projeto

O ano de 2021 marcou uma virada. O projeto firmou parceria com a Prefeitura de Goianinha, por meio da prefeita Nira Galvão, que visitou o projeto e ofereceu apoio institucional. Mesmo com nova pausa entre fevereiro e julho devido aos surtos de covid, o número de alunos dobrou — de 30 para 60 atletas.
Em 2022, uma nova parceria com a Escola Municipal Nazaré de Andrade Duarte impulsionou ainda mais o crescimento. O número de alunos chegou próximo a 100. O projeto ampliou intercâmbios, iniciou atividades de basquete em cadeira de rodas e conquistou o título da NLB (Nossa Liga de Basquete) sub-18 masculino.
Protagonismo estadual e nacional

A partir de 2023, o Fênix passou a figurar com destaque no cenário regional e nacional.
Três convocações para a seleção sub-16 feminina do RN
Vice-campeão estadual sub-13 feminino na Paraíba
Participação nos JEBs em Brasília, terminando como 7ª melhor equipe do Brasil

Em 2024, vieram conquistas históricas:
Campeão Estadual sub-14 feminino (feito inédito)
Vice-campeão estadual sub-16 feminino
Convocações para seleções estaduais
Participações em interestaduais em AL e PB

Mas 2025 entrou para a história como o ano mais vitorioso do Projeto Fênix Basquetebol. A
temporada foi marcada por resultados expressivos, consolidação técnica e reconhecimento regional. No basquete 3x3, o sub-14 feminino conquistou o título estadual, enquanto o masculino garantiu o vice-campeonato, reforçando a força da base do projeto.
As meninas também brilharam na Copa Carlão sub-14, conquistando o título, e repetiram o feito na Copa Motiva, enfrentando equipes tradicionais de Pernambuco, Alagoas e Paraíba. No cenário escolar, três categorias foram campeãs estaduais, com destaque para o reconhecimento de melhor técnico — todos vinculados ao projeto.
A consagração veio em nível nacional: a equipe sub-14 do Nazaré Duarte, formada por atletas do Fênix, sagrou-se campeã brasileira da Série Bronze dos JEBs 2025, em Uberlândia-MG. Um marco que simboliza não apenas um título, mas a consolidação de um trabalho iniciado anos antes em uma quadra simples de Goianinha.
A história que simboliza o projeto

Entre os grandes destaques do Projeto Fênix está a trajetória de Luana Ferreiro, símbolo da transformação que o esporte pode proporcionar. Ela chegou ao projeto ainda criança, aos 9 anos, dando seus primeiros arremessos em uma quadra simples de Goianinha, sem imaginar até onde aquele sonho poderia levá-la. Com dedicação, disciplina e acompanhamento técnico constante, Luana evoluiu temporada após temporada, tornando-se referência dentro e fora das quadras.
Em 2025, aos 14 anos, viveu o ano mais marcante de sua jovem carreira: foi eleita atleta ouro, conquistou o prêmio de MVP em copas interestaduais e recebeu o reconhecimento de melhor atleta do ano. O desempenho chamou a atenção além das fronteiras do estado e culminou em sua contratação por uma equipe de Santa Catarina, onde dará sequência à trajetória no cenário competitivo nacional.
Mais do que uma conquista individual, a história de Luana representa o propósito do Projeto Fênix: oferecer oportunidade, desenvolver talentos e provar que, independentemente do ponto de partida, é possível alcançar grandes palcos quando há trabalho sério e apoio contínuo.
Muito além das quadras: sonhos que seguem em construção
Hoje, o Projeto Fênix Basquetebol atende cerca de 80 atletas, entre 8 e 17 anos, oferecendo basquete tradicional e basquete 3x3 para crianças e adolescentes da comunidade de Goianinha. Mais do que formar equipes competitivas, o projeto trabalha com um objetivo claro: abrir portas. Seja por meio de bolsas de estudo, convocações estaduais ou oportunidades em competições nacionais, cada treino carrega a intenção de ampliar horizontes.
Para 2026, o planejamento já está traçado. O Fênix mira novas participações em Campeonatos Estaduais, a disputa do CBI (Campeonato Brasileiro Interclubes) e o aumento no número de atletas convocados e contemplados com bolsas. Mas, ao mesmo tempo em que celebra conquistas, o projeto ainda enfrenta desafios importantes. Entre os principais sonhos estão treinar em um espaço coberto e iluminado, oficializar totalmente a legalização do projeto, filiar-se à Federação e à CBB e ampliar o acesso à Bolsa Atleta municipal.
A trajetória do Fênix nunca foi construída com facilidades. Cresceu com sacrifício, dedicação e compromisso com a juventude da cidade. O que começou com poucos atletas e quase nenhuma estrutura hoje forma campeões estaduais, campeãs brasileiras escolares e jovens que já alcançam o cenário profissional.
A história do Projeto Fênix é a prova de que o esporte transforma vidas quando há propósito e persistência. De uma quadra simples no interior do Rio Grande do Norte, surgem sonhos que atravessam fronteiras — e seguem voando cada vez mais alto.




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